Equilíbrio emocional – Ele é tão importante para a mãe quanto para o desenvolvimento do bebê

- Por Cynthia Magnani • 08/09/2008

Que alegria! O bebê acabou de nascer. A casa fica cheia de visitas, o telefone não pára de tocar com pessoas querendo desejar saúde, felicidade e paz para a família que aumenta. Paz… É tudo o que a nova mamãe precisa para cuidar do novo filhote e dos mais velhos (e, claro, sem esquecer do maridão). Mas nem sempre é assim que acontece. Muitas vezes, as mães balançam com tanta responsabilidade, ficam com medo, cheias de dúvidas e ansiosas nos cuidados do bebê. E isso pode influenciar diretamente a criança de forma muito negativa. Cuidado.

“Assim que a mulher tem um filho ela inicia um novo ciclo geracional. Além de ainda ser filha de seus pais, agora também é mãe com um filho para cuidar. Esse momento provoca um estado muito especial, pois ela desenvolve a preocupação materna primária. Depois da maternidade, a mulher muda seus planos de vida, passando a sempre incluir seus filhos em todos os seus projetos”, explica Cynthia Ladvocat, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), que acrescenta ainda que essa fase permanece por um tempo, até que a mãe se recupere para poder voltar às suas atividades diárias.

É preciso destacar que o impacto da depressão materna deve ser entendido como um distúrbio na relação entre a mãe e o bebê, em que estão envolvidos aspectos emocionais dos dois

Essa mudança de vida e o novo peso de uma enorme carga de responsabilidade, muitas vezes, podem ser demais para a mulher, e ela acaba sofrendo ao invés de aproveitar os primeiros meses de vida do filho. “Após ter um bebê, 70% a 90% das mães sentem-se tristes, e este é um fenômeno natural chamado baby blues. Ele é um distúrbio transitório de humor e que se exterioriza no decorrer dos primeiros dias após o parto. Em condições favoráveis, não ultrapassa dez dias, podendo, em outras condições, estender-se a três semanas após o parto. Os sintomas descritos são: choro, confusão, humor lábil e deprimido, além de ansiedade. Estas reações, geralmente, resolvem-se espontaneamente, mas se persistirem por mais de três semanas, é conveniente realizar uma avaliação junto à equipe de saúde”, informa Evanisa Brum, psicóloga, psicoterapeuta e doutoranda do programa de Psicologia da UFRGS.

A secretária executiva Maria Angélica Bellinho, mãe de dois filhos, sabe bem como uma mulher se sente nessa época. “Quando tive meu primeiro filho, fiquei super feliz, mas muito nervosa. Eu chorava à toa e via em tudo um ‘cavalo de batalha’. Minha filha não podia espirrar que eu já achava que ela estava com alguma doença grave, como tuberculose. Na verdade, quando estava na minha primeira gravidez, eu li num horóscopo que teria um filho com problemas de saúde. Pronto, aquilo me desconsertou. Ela até tem alguns problemas respiratórios, mas eu só conseguia pensar no pior. Já com o segundo filho, fiquei feliz e bem, mas dizem que segundo filho é assim mesmo. Você se sente mais confiante, mais segura”, diz.

Segundo Dra. Evanisa, esse fenômeno ainda não caracteriza um quadro de depressão pós-parto, mas o aparecimento dos sintomas já exige uma atenção extra, pois “entre 15% a 20% das mulheres que tiveram baby blues desenvolverão, em seguida, a depressão pós-parto propriamente dita, a qual pode estabelecer-se com uma intensidade leve, moderada ou severa”, revela.

O que os bebês absorvem

Para Maria Angélica, o fato de não ter demonstrado para os filhos os seus medos e inseguranças quando eles eram pequenos fez com que eles sentissem mais confiança nela e, por conseqüência, isso os tornou mais confiantes também. “Acho que nunca deixei transparecer isso para nenhum dos dois. A minha mãe, ao contrário, mostrava muita insegurança quando eu era pequena. Eu procurava sempre passar confiança para os meus filhos, e acho que eles realmente sentiram isso”, afirma.

Mas será que os bebês são mesmo capazes de perceber quando algo anda errado? E mais, será que essa rejeição sofrida na mais tenra idade pode ter reflexos no futuro? Dra. Cynthia lembra que “os cuidados com o filho de uma mulher com depressão devem ser redobrados, com ajuda de terceiros, preferencialmente pessoas da família. Além disso, a mãe precisa ser tratada psiquiatricamente, com medicamentos e acompanhamento psicoterapêutico, até que o quadro seja revertido”. Com todos esses cuidados, ela garante que o risco de comprometimento no desenvolvimento dos filhos reduz consideravelmente, no entanto, frisa que as mães, depois de recuperadas, devem ficar atentas aos seus filhos caso apresentem alguma dificuldade ou comportamento fora do normal.

Já a Dra. Evanisa informa que esse tema tem gerado um grande número de estudos e pesquisas. “Esses estudos indicam que o comportamento de mães deprimidas tende a influenciar o desenvolvimento de psicopatologias em seus filhos, ou seja, a depressão pós-parto pode afetar a vida das crianças, gerando conseqüências que duram até a idade adulta. Os filhos de mães deprimidas apresentam maior risco de terem desordens comportamentais, afetivas, cognitivas e sociais, auto-imagem negativa, distúrbios do apego, maior incidência de diagnóstico psiquiátrico, bem como maior risco de apresentarem alterações da atividade cerebral. É preciso destacar que o impacto da depressão materna deve ser entendido como um distúrbio na relação entre a mãe e o bebê, em que estão envolvidos aspectos emocionais dos dois”, revela.

Ela complementa dizendo que “as mães deprimidas tendem a ter mais dificuldades de compreender seus bebês e menos sensibilidade aos sinais de seus filhos. Por exemplo, é mais difícil para uma mãe com depressão compreender o que o choro de seu bebê significa e, portanto, apresenta dificuldade em atender à necessidade de seu bebê”.

É, vida de mulher não é fácil mesmo. Além de ter que ser uma boa filha e uma boa mãe – isso sem falar de uma boa profissional -, ela ainda precisa ser uma boa esposa, e pelo que se pôde ver anteriormente, os primeiros meses do bebê são um momento sui generis na vida de todas as mulheres. São tantas as preocupações com o novo filho, que muitas vezes o marido fica em segundo plano. Quando ele não está na mesma sintonia da mãe, de curtir o filhote e dar mais importância à família, não apenas a si próprio, podem surgir problemas conjugais também.

“Justamente por causa do medo ao ter meu primeiro filho, acho que me tornei uma pessoa muito ‘chata’ na época. Isso era ruim. Meu ex-marido reclamava da minha insegurança e da minha ‘chatice’. Tanto, que a primeira mamadeira da minha filha, quem fez foi ele”, relembra Maria Angélica.

O casal deve levar em consideração que após o nascimento de uma criança, a vida muda, mas deve mudar para melhor. É claro que surgem novas dificuldades, mas elas podem (e devem) ser solucionadas com o apoio da família

Um caso parecido foi o da florista Maria Helena Dias. “Eu tive depressão pós-parto mas, ao invés de não conseguir olhar para a cara do meu filho, eu era uma mãe exageradamente presente. Não deixava ninguém colocar a mão nele, nem minha mãe. Eu ficava tão louca querendo passar cada segundo ao lado do bebê, que simplesmente esquecia de dar atenção ao meu marido. Nem cozinhava mais para ele. Eu fazia a comida do bebê e comia também. Ele não agüentou o tranco e acabou pedindo a separação. A minha sorte foi que minha irmã percebeu o problema e me sugeriu tratamento psiquiátrico. Depois de alguns meses eu voltei ao normal e meu casamento voltou a ser ótimo, como antes. Hoje, minha família está em perfeita harmonia”, conta.

Uma dica da Dra. Cynthia para manter a harmonia no lar é privilegiar a relação mãe-bebê, mas lembra: “Para que a mulher cuide bem do filho, ela precisa ser cuidada pelo marido e pelos familiares. O casal deve levar em consideração que após o nascimento de uma criança, a vida muda, mas deve mudar para melhor. É claro que surgem novas dificuldades, mas elas podem (e devem) ser solucionadas com o apoio da família.”

A harmonia dentro de casa é benéfica a todos, e com certeza o bebê também vai se sentir bem e amado. “Para manter a mente saudável a mulher precisa, antes de qualquer coisa, estar em paz consigo mesma”, complementa Dra. Cynthia.

Quando as mães precisam de ajuda

Já que toda a família deve ajudar a cuidar do bebê e da mãe, é importante que todos saibam como identificar quando a mulher não está conseguindo enfrentar os problemas da recente maternidade.

Se ela tiver passado por situações que são consideradas agravantes, como a perda de apoio familiar (quando ocorre uma briga com o parceiro ou com uma presença feminina importante), dificuldades financeiras acentuadas, complicações na gravidez ou no parto, ocorrência de aborto anteriormente, luto durante a gestação ou pré-existência de doenças psiquiátricas, os cuidados devem ser redobrados.

A Dra. Evanisa descreve alguns aspectos que podem ajudar nessa identificação, apesar de os casos mais freqüentes serem os de depressão leve e moderada, que são também os mais difíceis de serem identificados. “Muitas vezes, estes diagnósticos apresentam-se sob a máscara de queixas somáticas, que tendem a piorar ao longo dos anos, os quais teriam melhor prognóstico se identificados precocemente. Já as depressões graves apresentam presença de idéias suicidas, desânimo e lentidão que perturbam as funções de mãe. Outro sintoma é uma relação conflituosa com o parceiro. Ver uma mãe que se ocupa integralmente do filho, não dividindo os cuidados com ninguém, nem com parentes ou com uma babá, também é um indicativo que ela pode estar sofrendo de um quadro depressivo”, segundo a psicóloga.

O comportamento do bebê também pode indicar problemas na relação mãe-bebê, por isso deve ser constantemente avaliado. “É preciso ficar atento a se a criança apresenta distúrbios psicossomáticos recorrentes, distúrbios do sono e do apetite, retardo do desenvolvimento ou do crescimento ou um temperamento que seja considerado ‘difícil’”, afirma.

Como ajudar

Se você conhecer alguma mulher que apresente um desses sintomas e teve filho há pouco tempo, é importante fazê-la saber que existem atendimentos tradicionais, como tratamento psicológico individual e medicação anti-depressiva que podem ajudar a acabar com os seus problemas. “Atualmente, o tratamento em psicoterapia breve pais-bebê tem apresentado excelentes resultados. Neste tipo de intervenção trabalha-se na sessão com a família, incluindo o bebê. Consegue-se, desta forma, alterar tanto os sintomas das mães quanto os do bebê. Por ser uma intervenção pontual, consegue-se, em poucas sessões, uma melhora do quadro geral. O custo, também por sua brevidade, é menor que o de tratamentos convencionais de longa duração. Além disto, este é o período considerado mais adequado para a realização de intervenção pela Organização Mundial de Saúde”, comenta Dra. Evanisa.

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